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T2 na Arrentela

T2 na Arrentela

28
Dez19

Capítulo 4 - Parte 1 - A gata. O doloroso acto de pensar e o doloroso acto de tomar banho. Ainda por cima o Hitler? Ficar careca.


            Saio da cozinha em direcção à casa de banho. A minha gata segue a minha passada. Apesar de eu lhe fechar a porta na cara todos os dias, a felina insiste em raspar a tinta branca da madeira para entrar. Mia, mia e mia até lhe permitir a entrada.

Dispo-me para tomar banho e a gata pensa: “Epá, este gajo é mesmo branco.” E eu penso: “Esta gata é mesmo preta.” Somos mutuamente racistas, por isso não há problema. É como na matemática: menos com menos dá mais; racismo com racismo dá antirracismo (acho eu).

Chego à conclusão de que esta gata já me viu mais vezes nu do que qualquer pessoa, e tendo em conta que ela mia, raspa e patinha para entrar na casa de banho… só pode significar uma coisa: ela gosta do que vê. Para mim sobra o desejo de que os seres humanos do sexo feminino também venham a desenvolver esse tipo de ansiedade em ver o meu corpo. Não aconteceu até ao dia de hoje.

            Tomar banho é um ritual doloroso para mim; não porque abomine o acto em si, mas sim porque é o único momento do dia em que não posso estar ao telemóvel, evitando os cantos escuros da minha mente. Portanto estou debaixo da cabeça do chuveiro e imagino o que seria voltar atrás no tempo. Voltaria ao passado para matar o Hitler ou para salvar a minha relação anterior? Quão atrás necessitaria de ir para resolver qualquer uma dessas situações? Não seria melhor ficar no presente e ansiar por um futuro melhor? E se nunca matei alguém no presente, seria capaz de fazê-lo no passado? Ainda por cima o Hitler? Talvez fosse melhor educá-lo com amor e carinho e ver no que dava. Seria incrível poder gabar-me de ter evitado a II Guerra Mundial através do poder do amor; e dotado de tanta capacidade para o amor, certamente teria as faculdades para reconquistá-la (Ela) no presente. Saio do banho. Problema resolvido. Hoje não há em que mais pensar.

            Pego no secador húmido e utilizo-o para desembaciar o espelho. De seguida agarro a escova e é um puxa para aqui empurra para ali até o cabelo estar formatado, segundo as normas de uma sociedade plural e democrática. No meio do processo questiono-me se algum dia ficarei careca e pior que ficar careca só mesmo não ter parado de pensar.

            Há quem pense em coisas nobres como a existência humana, a natureza, a política e a arte. Há também quem pense em ficar careca. A calvície pertence ao domínio da existência humana, mas não é o tema central das dissertações de muito filósofos. Esse problema é para os carecas, e maior parte dos filósofos possuíram cabelo. É quase  condição sine qua non. Se és careca não podes filosofar. O meu amigo João está a remar contra essa maré. Não me lembro bem das suas palavras, mas parafraseando:

           

25
Dez19

Capítulo 3 - Conversa de amigos nº 1: questões sobre o livro; Vagina; Durkheim e Max Weber


Conversa de amigos nº 1

 

Francisco: Tens a certeza que é assim que queres começar o teu livro? Ó Pedro, este gajo não só está a escrever um livro como também o começou por citar um gajo qualquer chamado Jorge de Sena! ‘Tás mesmo a querer parecer intelectual, não é? E depois disso falas de bombas dentro de fornos, de uma aula de matemática qualquer em que choraste, e da tua ex logo no segundo capítulo? ‘Tás mal! Sabes do que é que precisas?

Eu: Não é preciso dizeres, eu já sei.

Pedro: VAGINA!

Francisco: Vagina não, CONA!

Eu: Ou então, se calhar, eu só quero escrever porque gosto de escrever.

Francisco: Não, não. O que tu precisas é de uma vagina na boca. Vais-nos dizer que não tens saudades de uma vagina na boca?

Eu: Epá sim, mas acho que escrever e ter vaginas na boca não são coisas mutuamente exclusivas.

Pedro: Então não são? Tu consegues ter uma vagina na boca e escrever ao mesmo tempo?

Francisco: Ele deve ‘tar a dizer que escreve com a língua. Mania de artista, é o que é.

Eu: Não, suas estúpidas. Se tenho uma vagina na boca as minhas mãos continuam livres para escrever, ou fazer ovos mexidos se me apetecer.

Francisco: Eu já fiz isso uma vez…

Pedro: O quê? ´Tás a gozar? Tiveste uma vagina boca enquanto fazias ovos mexidos?

Francisco: Man, foi um dia em que eu e a Carla estávamos atrasados para o trabalho e, como não gostamos de gastar o subsídio de alimentação à balda, o pequeno almoço é em casa. Ela queria ovos e eu precisava de outro tipo de proteína, se é que me entendes. GAINS, GAINS! NO PAIN, NO GAIN!

Eu: Às vezes pergunto-me porque é que me dou com vocês…

Pedro: Porque tu és aquele que quer ser comediante, mas também és super aborrecido. Precisas de nós. Vamos recapitular. Tu tens vinte e dois anos e estás a escrever um livro. Há coisa mais à cromo do que escrever?

Eu: Há: comer a tua mãe de quatro enquanto se lê A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo do Max Weber! Ui, toma que já ardeste como o pinhal de Leiria. Não é, Chico?

Francisco: Meu, mata-te.

Eu: Por acaso o Durkheim escreveu uma obra interessantíssima sobre o suicídio, que se intitula assim mesmo: O Suicídio. Tenho de ver se a requisito na biblioteca. Ouvi dizer que ele apurou o facto de os habitantes das grandes cidades serem estatisticamente mais propensos ao suicídio. Tenho isso a meu favor. O pessoal do campo está tão agarrado às tetas das vacas que nem se lembra de se matar. Que falhados.

Pedro: A minha avó era uma vaca. Fala com respeito, se faz favor. Agora quem não percebe por que motivo nos damos uns com os outros sou eu.

Francisco: Nem eu… Mas vá, senhor escritor, conte lá então como acaba a sua história.

Eu: Estou a pensar em dar-lhe um final digno, algo como o que vos contei há pouco: Eu a comer a mãe do Pedro de quatro enquanto leio Max Weber. Que tal?

21
Dez19

Capítulo 2. Tu és um nojo; Vida na comédia; Ela


            Tocou. Tocou pela terceira vez e pela terceira vez carreguei no snooze. Acordei. Habitualmente acordo mais pelos brados do meu irmão a mandar-me desligar o despertador do que pelo despertador em si. Acordei com vinte e dois anos, a idade que terei até completar mais uma volta ao Sol. É a Terra que dá voltas ao Sol, mas eu faço parte da Terra, e eu é que sou egocêntrico.

 Dor de costas: check; boca seca: check; pulmões com dificuldades no motor de arranque: check. Todos os dias a mesma coisa, sempre a mesma rotina.

            Levanto-me, dirijo-me à casa de banho, batalho com o tampo da sanita, urino, puxo o autoclismo e não baixo o tampo da sanita. Esse é um problema da minha mãe. Completo uma revolução sobre mim mesmo e olho-me ao espelho durante largos minutos, porque sou ligeiramente bonito ou pelo envelhecimento precoce da minha pele. Ainda não me decidi quanto aos motivos de tanto me olhar ao espelho.

            Agarro no telemóvel e coloco os fones nos ouvidos, abro o youtube e vejo um vídeo do Trevor Noah ou do Stephen Colbert para saber o que se passa na greatest nation on Earth. Ambos os apresentadores fazem piadas fáceis sobre o Donald Trump, do estilo: “Ontem comi um pêssego, por isso é como se tivesse ingerido o Donald Trump.” O vídeo acaba, pego numa chávena de vidro com café – e não numa chávena de café –, onde coloco um pacote de açúcar. Mexo o café com uma colher de uma liga metálica que desconheço – embora tenha quase a certeza de que não há prata nesse talher porque não somos ricos – e durante este processo lembro-me de querer ser comediante.

 “Se o Noah e o Colbert fazem isto com uma equipa de trezentas pessoas, eu consigo fazer isto com as três personalidades que possuo na minha caixa craniana.”

Fico motivado e penso em inscrever-me num open mic mas vem à tona a minha segunda voz que relata à primeira:

“Tu não és engraçado. Se algum dia tiveres piada será pelos piores motivos. Quando estiveres a subir ao palco, vais tropeçar num fio qualquer e as pessoas vão-se rir; quando estiveres prestes a abrir a boca, vais ter de pigarrear e as pessoas vão-se rir; quando estiveres a meio do teu texto as pessoas vão reparar que estás a suar profusamente das axilas e vão-se rir e sentir enojadas. Tu és um nojo.”

            Por fim aparece a minha terceira voz, a mais eloquente, que diz às restantes:

“Relaxem. Nós somos relativamente engraçados. Se participarmos num open mic o pior que poderá acontecer é ninguém se rir, mas com o tempo havemos de melhorar. Sejamos honestos: ainda não tentámos avançar com isto porque temos medo do que ela poderia pensar de nós. Apesar de ela não falar connosco há mais de um ano e de provavelmente não querer saber minimamente o que se passa, nós ainda alcandoramos a sua opinião nos píncaros da consideração humana. É triste, rapazes, mas estamos presos ao passado.”

            No fim da conversa o café está frio; tão frio como durante algum tempo achei o coração dela. Bebo o café sem prazer.  Ela queria coisas diferentes, eu queria congelar o tempo. Mas quem é ela?

18
Dez19

Capítulo 1. Frangos, bombas, lápis e saias


Queridos bloggers, 

Apresentamos agora o primeiro capítulo de uma história que não sabemos no que consiste nem para o que vai. O único detalhe que podemos avançar é o carácter autobiográfico da narrativa, com os necessários toques de magia que tiram o aborrecimento de uma vida plenamente rotineira e sem piada. A história também deverá ser  humorística se o leitor lhe achar piada, caso contrário nós andamos muito iludidos deste lado. 
Assumimos o compromisso de publicar um pequeno capítulo todas as quartas e sábados durante aproximadamente 457 semanas. 
Obrigado pela atenção. 

Cá vai:

 

1.

 

A vida é volátil e absurda. Dizia Jorge de Sena que um frango ao cair de um avião pode parecer uma bomba, mas – penso eu – uma bomba num forno também pode parecer um frango.

Não há motivo geral ou particular para se colocar uma bomba no forno, e qualquer pessoa dispõe das faculdades necessárias para evitar um lapso tão bacoco. Quem coloca um frango no forno em princípio tê-lo-á temperado; quanto às bombas, o tempero vem no seu interior: é como o peru do Dia de Acção de Graças dos americanos.

            Admito: eu não sou conhecido por dar graças às Graças.  O ano tem trezentos e sessenta e cinco dias; as Graças designaram, por si e para si, um dia específico para agir. Eu ajo todos os dias; não o digo para me pavonear ou entrar numa disputa de contagem de galardões de mérito militar. Não sou bom de pistolas, e também sou mau noutras coisas como a matemática.

            A matemática provoca-me frieiras nas mãos.  Certo dia, não removi as luvas ao entrar na sala de aula. A professora Otília, de olhos inquisitivos, plenamente iracunda e pronta a esganar aquele jovem – que na altura era eu – que a havia afrontado ao não lhe mostrar as mãos enquanto fazia equações.

– Ó jovem – ela chamou-me jovem porque naquele dia eu era mais jovem do que sou neste momento, e menos jovem serei no fim desta frase – porque é que está de luvas na minha sala de aula?

 – Tenho frieiras, senhora professora.

 – Ora, pois bem, eu tenho um gato. Saia da minha sala de aula! Rua!

Eu mantive-me prostrado no meu assento. O pânico suscitado por aquela interacção quebrou as correntes metálicas da polia que é o meu cérebro. Continuei sentado, e comecei a olhar em volta procurando a saia.

“Qual será o tipo de saia que mais se adequa à sobriedade de uma sala de matemática?” – pensei eu. – “Plissada? Rodada? Saia em A? Não, essa certamente ficará melhor na sala de língua portuguesa. Saia lápis? É possível… Mas que lápis? B ou HB? F ou H? oh não! Voltei à língua portuguesa. Que disparate.”

Enquanto eu pensava a professora abriu a porta, aproximou-se e arrastou-me até à saída. Nos estreitos segundos que a porta demorou a fechar-se tentei passar os olhos por todos os cantos da sala, tentando encontrar a saia da minha salvação. Sem sucesso. Estava sozinho e entregue às veredas frias do recinto escolar até ao próximo toque.

11
Dez19

Como seria a Segunda Guerra Mundial no século XXI


Se decorresse no século XXI a Segunda Guerra Mundial duraria minutos. Com
tantas redes sociais e com tanta autopromoção, parece-me lógico que Adolf Hitler,
Mussolini, Estaline, Churchill e Roosevelt seriam grandes instagrammers e membros
activos no Facebook, Twitter e Twitch.


Mal estalasse o conflito, Hitler faria uma live stream no Twitch e escreveria no
Twitter: «sinto-me abençoado, acabámos de invadir a Polónia com sucesso!»; colocaria
uma fotografia no Instagram, sentado nas escadas do Reichstag, afagando o pêlo do seu
pastor alemão. Na descrição, escreveria: «sinto-me abençoado, acabámos de invadir a
Polónia com sucesso!» Pouco inspirado, fracas ideias: o habitual. Abaixo seguir-se-ia
uma enxurrada de hastags, tais como: #abençoado, #chegueievenci, #adoroomeucão,
#odeiojudeus. Mas tudo isto em alemão, aquele idioma cheio de consoantes que por si
só justifica o nazismo.


Talvez Churchill seguisse o mesmo caminho. O Facebook perguntar-lhe-ia: «Em
que estás a pensar?», e ele, com tanta coisa por dizer, não se ficaria. Já idoso,
provavelmente responderia como se o Facebook fosse uma pessoa. «Ilustre Facebook,
obrigado pela tua questão. Vai uma charutada? Vá, não faças cerimónias! São cubanos,
sem embargo. Honestamente, tenho andando a pensar naquele parvalhão do Hitler e
no papa-crianças do Estaline. Quem me dera queimar-lhes os olhos com os cubanos, só
se estragavam mesmo os charutos. Isso, sim, seria o verdadeiro crime contra a
Humanidade!
Sempre teu, Winston Churchill.»


Benito Mussolini recorreria às stories do Instagram. Ali colocaria pequenos
vídeos em tronco nu, incitando os seus queridos camisas negras a bater em comunistas.


Estaline utilizaria o Twitter para esgrimir argumentos com Hitler. «@AdolfHitlerFührer, podes ter invadido a Polónia, mas a Ucrânia já cá canta há uns tempos. #LenhaparaGulag.»


Roosevelt demoraria a reagir porque estava a terminar a segunda temporada de
Dark, no Netflix. Quando saísse do seu transe, pensaria: «estes alemães até fazem um
bom trabalho!» De seguida abriria as redes sociais e ficaria horrorizado. Escreveria no
Twitter: «@KingGeorgeVI, peço-lhe perdão. Estava no Netflix and chill. Vou já mandar a
força aérea para aí.»


No meio de tudo isto, os líderes esquecer-se-iam de desligar a informação de
localização do smartphone, e saberiam em minutos onde estavam os seus inimigos.
Milhares de bombas voariam, Hitler não teria um bunker, Estaline não teria o seu
derrame cerebral, Mussolini não serviria de bola de futebol nas ruas, Churchill não teria
tempo para mais charutadas e Roosevelt deixaria de pagar a conta do Netflix. Isto tudo
em minutos!


Uma calamidade! Uma verdadeira calamidade ter de fazer unfollow a tanta
gente, ainda por cima em tão pouco tempo….

09
Dez19

Criança nasce com cauda na Colômbia



Parece que na Colômbia nasceu um bebé com cauda. Segundo a imprensa, as
fotografias tornaram-se virais. Fiquei com pena daquela criança, não por ter
cauda mas por as fotos se terem tornado virais.
No mundo de hoje as pessoas têm cada vez menos empatia, e isso talvez advenha
do  tempo excessivo que passamos nos nossos telemóveis.
Aquela criança nasceu com cauda, até aqui tudo bem; o que está mal é terem-se
tirado e divulgado aquelas fotografias. Acabado de nascer, talvez ainda com dificuldades
respiratórias, o bebé foi posto de costas e tiraram-lhe várias fotos ao rabo, para as 
colocarem na internet. Será que ninguém se lembrou de lhe tirar uma foto à cara
primeiro? Será que os pais aceitaram de bom grado que o rabo do seu filho se tornasse
viral?
Imaginemos que o pobre rapazito, já crescido, decide um dia levar a sua primeira
namorada à casa dos pais; imaginemos que os pais fazem a típica brincadeira de mostrar
à namorada as fotos do namorado em criança… será um dia muito constrangedor para
o “nosso” menino viral.

«Hola, Tata. Sou uma imigrante portuguesa, por isso o meu  espanhol acabou no hola. Anda cá que eu e o Aureliano queremos mostrar-te o álbum das primeiras fotografias do nosso Pablito E. Buendía. Chega-te aqui, querida. Esta é a primeira foto do Pablo.»


A Tata olhará para a fotografia e verá um rabo engelhado e uma cauda prensada entre o polegar e o indicador de algum enfermeiro. Ora o Pablo não é uma repugnante ratazana. O Pablo tem cauda mas é humano! Quer dizer… o Pablo tinha cauda! Foi mutilado, mal abertas estavam as suas goelas e  os seus órgãos online
A quem pertence o poder de decisão num caso destes? O que é que se passou?
Será que a mãe ao olhar pela primeira vez o seu filho, afirmou:

«Tem cauda? Assim já não o quero. Aureliano tira umas fotos ao rabo do miúdo para ser viral, e pega
aquela tesoura.»

Foi isto que se passou? Ou, por outro lado, os pais estavam de bem
com a situação e os médicos obrigaram-nos a cortar a cauda do Pablo?

«Desculpe lá, senhora Pilar, mas esta cauda é para cortar.»
«Não o faça, senhor doutor, rogo-lhe que deixe o meu filho como Deus o fez!»
«Quem o fez foi a senhora e o seu marido, não chame o Senhor para onde ele não é chamado!»
«Por favor, não mutile o meu menino; talvez mais tarde se venha a sentir complexado e tente compensar a ausência da cauda com a venda de cocaína.»
«Tem de ser.»
«Porquê?»
«Porque não há calças para quem tem cauda, minha senhora…»
«Então, ele há-de vestir saias.»


Chop chop, zás trás pás, catrapumba, xiribitátá urra, urra pontapé na cauda,
preconceitos de gente graúda. Lá se foi a cauda.
Cortar a cauda a um recém-nascido é como baptizá-lo uma semana após o seu
nascimento; ambos são compromissos a longo prazo, ambos irrevogáveis.

05
Dez19

A abelha: dissertação sobre o terrorismo


A abelha é um ser acéfalo; vive sob monarquia absoluta, navegando pelos caprichos da rainha déspota. Sucede que a abelha é pau mandado, e quem manda é cruel. A abelha rainha é partidária dos bombistas suicidas; manda os seus soldados ferrar na chicha dos adversários, sem lhes explicar que, ao fazê-lo, irão perecer.

Felizmente, nunca fui picado por um bombista suicida. Seria bastante chato porque não estou virado para morrer tão cedo. Quando passam por mim, sobretudo no verão, os bombistas suicidas zumbem à fartazana, o que me deixa bastante irrequieto. Zumbem para cá, zumbem para lá, e eu não entendo o que dizem. É um idioma tão complexo como o árabe. Os bombistas suicidas falam línguas que não entendo. Talvez seja melhor assim.

A abelha bombista suicida quando ferra é porque se sente ameaçada ou porque acha que vão atacar a sua colmeia. O terrorista islâmico quando ferra é porque se esqueceu das bombas em casa. A primeira diz «Zzzzzzz», o segundo diz «Allahu Akbar». Será que «Zzzzzzz» também significa «Deus é grande»? Não sei, mas não domino o abelhês nem o árabe.

Gostaria de revelar às abelhas e aos terroristas islâmicos que ao ferrar, em princípio, morrem. Admiro esta gente, eu não tenho essa coragem. Morrer é uma coisa, morrer por vontade real ou divina é outra. No fundo, são duas coisas porque um mais um é dois.

A dúvida que persiste é saber se a abelha também tem uma mitologia reconfortante. Será que a abelha ao ferrar tem crises existenciais mas sente que cumpriu o seu dever ou, tal como o terrorista islâmico, vai feliz na crença de que tem um séquito de abelhas rainhas virgens a fecundar? Não sei, mas como disse, não domino o abelhês nem o árabe.

 

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