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T2 na Arrentela

T2 na Arrentela

08
Jan20

Capítulo 6 - Cidra, Cidra, Cidra, Sida. Ser ou não ser presidente? Velhas e chouriços. Canibalismo. P.S: falhas narrativas


Cidra, cidra, cidra, sida. Beber sem moderação e sexo sem protecção, eis o meu slogan para as presidenciais. Será esta a plataforma ideal para quem deseja parecer presidencial? Não sei, mas os trumps e os bolsonaros desta vida parecem conseguir manter-se no poder sem muito mais a oferecer. Um confronta jornalistas dizendo-lhes que têm “cara de homossexual”; o outro bombardeia o herói nacional do Irão sem saber bem porquê. Se é este o grau de exigência também posso ser presidente.

Eu nem quero ser presidente. O cargo parece muito aborrecido e tem de se ter em conta que uma das tarefas inerentes é beijar velhas na rua. Beijar velhas desconhecidas na rua só é aceitável quando se é presidente; quando se é um cidadão comum nem as velhas aceitam ser beijadas. Acreditem, eu tentei. O mais estranho de se ser rejeitado por uma velha é o facto de se ser rejeitado por uma velha. Por mais horrível que seja um jovem parece-me inegável que ele possui qualidades suficientes para estimular uma velha, de vários modos: intelectualmente, sexualmente, etc.

Mas a presidência possui uma vantagem inegável: comer à pala em tudo o que é feira. É debicar no chouriço, no presunto, nas azeitonas e nos tremoços, beber da bela vinhaça e do melhor bagaço, ingerir a melhor bifana e a mais gorda das sardinhas.

Portanto tenho habitado numa espécie de limbo. Não quero ser presidente, mas quero comer à borla. Só que para comer à borla os enchidos e os melhores acepipes também tenho de comer velhas, e eu nunca me dei a conhecer ou me conheço como canibal. Alguém tem linha directa para o Marcelo? E para o Cavaco?

 

 

P.S (Post Scriptum, não Partido Socialista): Poderá o leitor perguntar o que tem este capítulo que ver com os anteriores? Deste lado, respondemos: nada. Estávamos sem ideias de como se compõe uma narrativa contínua, mas assumimos um compromisso com o leitor e connosco. Enquanto não falecermos, sairá um capítulo todas as quartas-feiras e sábado. Hoje é quarta-feira, caso não soubesse. Abraço e beijo.

04
Jan20

Capítulo 5 - A mente e a memória. Narguilé, Mcdonald's e Deus.


A mente e a memória são traiçoeiras. Elas têm a mania de reconstruir certos episódios do passado de modo a fazer-nos a personagem principal ou o herói das nossas vidas. O melhor modo de não sermos enganados é manter um diário por perto, onde anotamos todas as aventuras e desventuras da nossa existência. Ainda assim é muito provável que sejamos enganados. 

Ontem à noite sai com uns amigos. Fomos beber uns copos, fumar um narguilé e, para variar, a noite acabou no McDonald’s. Durante toda a noite senti-me particularmente engraçado, como se alguém tivesse decidido que eu iria fazer toda a gente rir-se. Mas quem detém o poder para tomar uma decisão dessas? Fui tocado pela sábia mão de Nosso Senhor? Não acredito. Obrigado, Memória, por me relembrares o meu ateísmo. Neste tipo de situação é sempre bom ser ateu porque quando achamos que estamos sozinhos, sem nenhuma força motriz a nortear a nossa vida, e as coisas nos correm bem, só temos de agradecer a nós mesmos. O problema é quando as coisas não nos correm de feição; aí a culpa também é nossa.

Deus costuma ser o maior bode expiatório de qualquer civilização. Quantos assassinos ou terroristas não se defendem dizendo que Deus lhes suscitou os ímpetos criminais? Quantas pessoas não pedem auxílio a Deus num momento delicado da sua vida, ou de um familiar? Quanta gente não encontra em Deus um catalisador de bondade? Deus pode ser instrumentalizado para o bem e para o mal. Deus, com todos os seus defeitos, cria a mais importante das coisas: o sentimento de pertença. Em torno de Deus existe uma comunidade, e quando falo em Deus não penso apenas naquela imagem do velho barbudo sentado numa nuvem. Deus pode ser Deus, mas também pode ser o Benfica, o Sporting, o Ginásio, o Yoga, a Natação, o Jiu Jitsu, o Marketing Digital, Comer Gajas, etc.

Pouco acredito em mim e menos acredito em deuses. Sinto-me regularmente tentado a acreditar numa deusa chamada Comédia, mas só serei um crente quando ela acreditar em mim também.

Ontem quase acreditei na Comédia. Afinal, eu estava a propagar o sacramento daquela deusa: o riso. Ao sairmos do Mcdonald’s os meus amigos pediram-me para levar o carro até ao Alto de Santa Catarina; queriam comer a olhar para o rio Tejo. Eles prometeram-me que ali havia bancos públicos para nos sentarmos fora do carro. Quando lá chegámos não existia um único banco. Nem um! Perdi a cabeça. Estive o resto do tempo a falar por cima de toda a gente e a criticar a escolha do local de comezaina. Gritar possui um efeito cómico óbvio: cria uma hostilidade desproporcionada a uma ocasião corriqueira como comer a olhar para um rio, provocando o riso como reacção. O problema é que há vários tipos de riso; um deles é o nervoso. Sem me aperceber, foi esse o riso que provoquei toda a noite.  

Depois de acabado o banquete e de ter dado boleia a vários amigos só me restava deixar em casa o meu compincha João. Chegando à sua casa, ele disse:

- Epá, hoje estiveste muito agressivo. O que é que se passou? – E eu disse:

- Vai para o caralho!

Lá está: a mente e a memória são traiçoeiras. Eu não enviei ninguém para o caralho ontem à noite. Se bem me lembro, o que eu disse ao João foi:

- Eia, a sério? Não queria de todo passar essa ideia. Estava a tentar ser engraçado, e vocês até se riram… - O João olhou para mim com os seus olhos de avozinha doce como se me fosse fazer uma festinha na cara, dar uma tacinha de pudim flan ou um conselho para a vida, e disse enquanto saía do carro:

- Vai para o caralho!

 

01
Jan20

Capítulo 4 - Parte 2 - As palavras do amigo filósofo. Falhas de memória. Bro. Bolos.


            “Amigo, tu sabes como isto tem sido difícil para mim. Toda a gente se queixa de algum tipo de discriminação, mas não sei se haverá um ser vivo mais vilmente e injustamente ridicularizado do que o careca.  O careca tem de dar constantes respostas a um conjunto de preconceitos particularmente maldosos.

Enquanto deambulo na rua sei que as pessoas pensam uma de três coisas:

  • Pensam que tenho cancro, resultando a minha careca da quimioterapia;
  • Pensam que sou skinhead, de vertente neonazi;
  • Pensam que tenho sucesso com as mulheres porque «é dos carecas que elas gostam mais.»

            Digo-te já: nada disso é verdade. Com cabelo tinha namorada, sem cabelo estou solteiro. Desde que estou careca, sempre que apanho um táxi, perguntam-me se vou para o I.P.O e lá tenho de dizer que não, que nunca estive no I.P.O. Os taxistas ao perceberem que nunca estive no I.P.O assumem que sou neonazi e que a minha ausência se prende com a existência de crianças judias naquele edifício hospitalar. Tudo isto é triste, tudo isto é calvo.”

            Pelo menos é desta forma que recordo as palavras do meu amigo João. Calculo que em vez de amigo ter-me-á chamado pelo meu nome uma vez ou outra; talvez até me tenha chamado bro. O João é poliglota e moderno. «Eu é mais bolos.»

28
Dez19

Capítulo 4 - Parte 1 - A gata. O doloroso acto de pensar e o doloroso acto de tomar banho. Ainda por cima o Hitler? Ficar careca.


            Saio da cozinha em direcção à casa de banho. A minha gata segue a minha passada. Apesar de eu lhe fechar a porta na cara todos os dias, a felina insiste em raspar a tinta branca da madeira para entrar. Mia, mia e mia até lhe permitir a entrada.

Dispo-me para tomar banho e a gata pensa: “Epá, este gajo é mesmo branco.” E eu penso: “Esta gata é mesmo preta.” Somos mutuamente racistas, por isso não há problema. É como na matemática: menos com menos dá mais; racismo com racismo dá antirracismo (acho eu).

Chego à conclusão de que esta gata já me viu mais vezes nu do que qualquer pessoa, e tendo em conta que ela mia, raspa e patinha para entrar na casa de banho… só pode significar uma coisa: ela gosta do que vê. Para mim sobra o desejo de que os seres humanos do sexo feminino também venham a desenvolver esse tipo de ansiedade em ver o meu corpo. Não aconteceu até ao dia de hoje.

            Tomar banho é um ritual doloroso para mim; não porque abomine o acto em si, mas sim porque é o único momento do dia em que não posso estar ao telemóvel, evitando os cantos escuros da minha mente. Portanto estou debaixo da cabeça do chuveiro e imagino o que seria voltar atrás no tempo. Voltaria ao passado para matar o Hitler ou para salvar a minha relação anterior? Quão atrás necessitaria de ir para resolver qualquer uma dessas situações? Não seria melhor ficar no presente e ansiar por um futuro melhor? E se nunca matei alguém no presente, seria capaz de fazê-lo no passado? Ainda por cima o Hitler? Talvez fosse melhor educá-lo com amor e carinho e ver no que dava. Seria incrível poder gabar-me de ter evitado a II Guerra Mundial através do poder do amor; e dotado de tanta capacidade para o amor, certamente teria as faculdades para reconquistá-la (Ela) no presente. Saio do banho. Problema resolvido. Hoje não há em que mais pensar.

            Pego no secador húmido e utilizo-o para desembaciar o espelho. De seguida agarro a escova e é um puxa para aqui empurra para ali até o cabelo estar formatado, segundo as normas de uma sociedade plural e democrática. No meio do processo questiono-me se algum dia ficarei careca e pior que ficar careca só mesmo não ter parado de pensar.

            Há quem pense em coisas nobres como a existência humana, a natureza, a política e a arte. Há também quem pense em ficar careca. A calvície pertence ao domínio da existência humana, mas não é o tema central das dissertações de muito filósofos. Esse problema é para os carecas, e maior parte dos filósofos possuíram cabelo. É quase  condição sine qua non. Se és careca não podes filosofar. O meu amigo João está a remar contra essa maré. Não me lembro bem das suas palavras, mas parafraseando:

           

25
Dez19

Capítulo 3 - Conversa de amigos nº 1: questões sobre o livro; Vagina; Durkheim e Max Weber


Conversa de amigos nº 1

 

Francisco: Tens a certeza que é assim que queres começar o teu livro? Ó Pedro, este gajo não só está a escrever um livro como também o começou por citar um gajo qualquer chamado Jorge de Sena! ‘Tás mesmo a querer parecer intelectual, não é? E depois disso falas de bombas dentro de fornos, de uma aula de matemática qualquer em que choraste, e da tua ex logo no segundo capítulo? ‘Tás mal! Sabes do que é que precisas?

Eu: Não é preciso dizeres, eu já sei.

Pedro: VAGINA!

Francisco: Vagina não, CONA!

Eu: Ou então, se calhar, eu só quero escrever porque gosto de escrever.

Francisco: Não, não. O que tu precisas é de uma vagina na boca. Vais-nos dizer que não tens saudades de uma vagina na boca?

Eu: Epá sim, mas acho que escrever e ter vaginas na boca não são coisas mutuamente exclusivas.

Pedro: Então não são? Tu consegues ter uma vagina na boca e escrever ao mesmo tempo?

Francisco: Ele deve ‘tar a dizer que escreve com a língua. Mania de artista, é o que é.

Eu: Não, suas estúpidas. Se tenho uma vagina na boca as minhas mãos continuam livres para escrever, ou fazer ovos mexidos se me apetecer.

Francisco: Eu já fiz isso uma vez…

Pedro: O quê? ´Tás a gozar? Tiveste uma vagina boca enquanto fazias ovos mexidos?

Francisco: Man, foi um dia em que eu e a Carla estávamos atrasados para o trabalho e, como não gostamos de gastar o subsídio de alimentação à balda, o pequeno almoço é em casa. Ela queria ovos e eu precisava de outro tipo de proteína, se é que me entendes. GAINS, GAINS! NO PAIN, NO GAIN!

Eu: Às vezes pergunto-me porque é que me dou com vocês…

Pedro: Porque tu és aquele que quer ser comediante, mas também és super aborrecido. Precisas de nós. Vamos recapitular. Tu tens vinte e dois anos e estás a escrever um livro. Há coisa mais à cromo do que escrever?

Eu: Há: comer a tua mãe de quatro enquanto se lê A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo do Max Weber! Ui, toma que já ardeste como o pinhal de Leiria. Não é, Chico?

Francisco: Meu, mata-te.

Eu: Por acaso o Durkheim escreveu uma obra interessantíssima sobre o suicídio, que se intitula assim mesmo: O Suicídio. Tenho de ver se a requisito na biblioteca. Ouvi dizer que ele apurou o facto de os habitantes das grandes cidades serem estatisticamente mais propensos ao suicídio. Tenho isso a meu favor. O pessoal do campo está tão agarrado às tetas das vacas que nem se lembra de se matar. Que falhados.

Pedro: A minha avó era uma vaca. Fala com respeito, se faz favor. Agora quem não percebe por que motivo nos damos uns com os outros sou eu.

Francisco: Nem eu… Mas vá, senhor escritor, conte lá então como acaba a sua história.

Eu: Estou a pensar em dar-lhe um final digno, algo como o que vos contei há pouco: Eu a comer a mãe do Pedro de quatro enquanto leio Max Weber. Que tal?

21
Dez19

Capítulo 2. Tu és um nojo; Vida na comédia; Ela


            Tocou. Tocou pela terceira vez e pela terceira vez carreguei no snooze. Acordei. Habitualmente acordo mais pelos brados do meu irmão a mandar-me desligar o despertador do que pelo despertador em si. Acordei com vinte e dois anos, a idade que terei até completar mais uma volta ao Sol. É a Terra que dá voltas ao Sol, mas eu faço parte da Terra, e eu é que sou egocêntrico.

 Dor de costas: check; boca seca: check; pulmões com dificuldades no motor de arranque: check. Todos os dias a mesma coisa, sempre a mesma rotina.

            Levanto-me, dirijo-me à casa de banho, batalho com o tampo da sanita, urino, puxo o autoclismo e não baixo o tampo da sanita. Esse é um problema da minha mãe. Completo uma revolução sobre mim mesmo e olho-me ao espelho durante largos minutos, porque sou ligeiramente bonito ou pelo envelhecimento precoce da minha pele. Ainda não me decidi quanto aos motivos de tanto me olhar ao espelho.

            Agarro no telemóvel e coloco os fones nos ouvidos, abro o youtube e vejo um vídeo do Trevor Noah ou do Stephen Colbert para saber o que se passa na greatest nation on Earth. Ambos os apresentadores fazem piadas fáceis sobre o Donald Trump, do estilo: “Ontem comi um pêssego, por isso é como se tivesse ingerido o Donald Trump.” O vídeo acaba, pego numa chávena de vidro com café – e não numa chávena de café –, onde coloco um pacote de açúcar. Mexo o café com uma colher de uma liga metálica que desconheço – embora tenha quase a certeza de que não há prata nesse talher porque não somos ricos – e durante este processo lembro-me de querer ser comediante.

 “Se o Noah e o Colbert fazem isto com uma equipa de trezentas pessoas, eu consigo fazer isto com as três personalidades que possuo na minha caixa craniana.”

Fico motivado e penso em inscrever-me num open mic mas vem à tona a minha segunda voz que relata à primeira:

“Tu não és engraçado. Se algum dia tiveres piada será pelos piores motivos. Quando estiveres a subir ao palco, vais tropeçar num fio qualquer e as pessoas vão-se rir; quando estiveres prestes a abrir a boca, vais ter de pigarrear e as pessoas vão-se rir; quando estiveres a meio do teu texto as pessoas vão reparar que estás a suar profusamente das axilas e vão-se rir e sentir enojadas. Tu és um nojo.”

            Por fim aparece a minha terceira voz, a mais eloquente, que diz às restantes:

“Relaxem. Nós somos relativamente engraçados. Se participarmos num open mic o pior que poderá acontecer é ninguém se rir, mas com o tempo havemos de melhorar. Sejamos honestos: ainda não tentámos avançar com isto porque temos medo do que ela poderia pensar de nós. Apesar de ela não falar connosco há mais de um ano e de provavelmente não querer saber minimamente o que se passa, nós ainda alcandoramos a sua opinião nos píncaros da consideração humana. É triste, rapazes, mas estamos presos ao passado.”

            No fim da conversa o café está frio; tão frio como durante algum tempo achei o coração dela. Bebo o café sem prazer.  Ela queria coisas diferentes, eu queria congelar o tempo. Mas quem é ela?

18
Dez19

Capítulo 1. Frangos, bombas, lápis e saias


Queridos bloggers, 

Apresentamos agora o primeiro capítulo de uma história que não sabemos no que consiste nem para o que vai. O único detalhe que podemos avançar é o carácter autobiográfico da narrativa, com os necessários toques de magia que tiram o aborrecimento de uma vida plenamente rotineira e sem piada. A história também deverá ser  humorística se o leitor lhe achar piada, caso contrário nós andamos muito iludidos deste lado. 
Assumimos o compromisso de publicar um pequeno capítulo todas as quartas e sábados durante aproximadamente 457 semanas. 
Obrigado pela atenção. 

Cá vai:

 

1.

 

A vida é volátil e absurda. Dizia Jorge de Sena que um frango ao cair de um avião pode parecer uma bomba, mas – penso eu – uma bomba num forno também pode parecer um frango.

Não há motivo geral ou particular para se colocar uma bomba no forno, e qualquer pessoa dispõe das faculdades necessárias para evitar um lapso tão bacoco. Quem coloca um frango no forno em princípio tê-lo-á temperado; quanto às bombas, o tempero vem no seu interior: é como o peru do Dia de Acção de Graças dos americanos.

            Admito: eu não sou conhecido por dar graças às Graças.  O ano tem trezentos e sessenta e cinco dias; as Graças designaram, por si e para si, um dia específico para agir. Eu ajo todos os dias; não o digo para me pavonear ou entrar numa disputa de contagem de galardões de mérito militar. Não sou bom de pistolas, e também sou mau noutras coisas como a matemática.

            A matemática provoca-me frieiras nas mãos.  Certo dia, não removi as luvas ao entrar na sala de aula. A professora Otília, de olhos inquisitivos, plenamente iracunda e pronta a esganar aquele jovem – que na altura era eu – que a havia afrontado ao não lhe mostrar as mãos enquanto fazia equações.

– Ó jovem – ela chamou-me jovem porque naquele dia eu era mais jovem do que sou neste momento, e menos jovem serei no fim desta frase – porque é que está de luvas na minha sala de aula?

 – Tenho frieiras, senhora professora.

 – Ora, pois bem, eu tenho um gato. Saia da minha sala de aula! Rua!

Eu mantive-me prostrado no meu assento. O pânico suscitado por aquela interacção quebrou as correntes metálicas da polia que é o meu cérebro. Continuei sentado, e comecei a olhar em volta procurando a saia.

“Qual será o tipo de saia que mais se adequa à sobriedade de uma sala de matemática?” – pensei eu. – “Plissada? Rodada? Saia em A? Não, essa certamente ficará melhor na sala de língua portuguesa. Saia lápis? É possível… Mas que lápis? B ou HB? F ou H? oh não! Voltei à língua portuguesa. Que disparate.”

Enquanto eu pensava a professora abriu a porta, aproximou-se e arrastou-me até à saída. Nos estreitos segundos que a porta demorou a fechar-se tentei passar os olhos por todos os cantos da sala, tentando encontrar a saia da minha salvação. Sem sucesso. Estava sozinho e entregue às veredas frias do recinto escolar até ao próximo toque.

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