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T2 na Arrentela

T2 na Arrentela

21
Jan20

Alerta CM



Num país tão pequeno como o nosso é difícil alcançar o reconhecimento público.
Nem todos vão para o panteão. Se o pilim for tentador, talvez lá se coma um coelho à
caçador. Não desejo jantar no panteão; acho mesmo uma falta de respeito os chefs
apresentarem peças com mais ossos que carne. Mas o gourmet é assim, segundo me
dizem.
Não almejo grande reconhecimento, apenas quero um estipêndio jeitoso.
Todavia, tenho uma proposta vencedora para os futuros residentes do panteão. Para se
ser reconhecido é preciso ser artista, político ou assassino. Infelizmente, as artes são
mal financiadas pela política, e a política está desvirtuada pela arte da corrupção. Sobra
a via dos assassinatos. Um assassinato também pode ser político ou artístico, logo a
probabilidade de obter o procurado reconhecimento aumenta quando se articulam as
três dimensões: politiquice, arte e matança. Recentemente morreu o “Mata-Sete” e
ninguém o tratou pelo seu nome de baptismo: Vítor Jorge. Por isso, questiono-me: se
um indivíduo matar mais que sete pessoas, com arte e política, será convidado a
descansar no panteão?
Como matar alguém com arte e política? Alguém poderá ter essa dúvida. Não se
preocupem, eu explico.
Nos dias que vêm passando, temos assistido a um crescimento das preocupações
com o ambiente. Há cada vez mais greves motivadas pela salvação do clima, alguns
políticos tentam passar medidas que acautelem as emissões de CO2 para a atmosfera e
tem-se investido em carros elétricos. Ouve-se por aí que o mundo vai acabar se não
mudarmos os nossos comportamentos. Este tipo de mensagem sensacionalista não
ajuda em nada os debates que realmente deveriam ser realizados. O mundo vai ficar
bem, nós é que vamos morrer. E nós não somos o mundo. Fica aqui a informação para
quem não sabia. Mas se as pessoas andam tão preocupadas com o mundo, por que
motivo não há uma alminha que apresse o fim da humanidade? Seria facílimo.


ALERTA CM


- Foi descoberto em sua casa o serial killer Jorge Vítor. O seu particularíssimo
modus operandi provocou a morte de cerca de cinco mil milhões de pessoas! Portugal
ficou com uma população de dez mil almas. Felizmente, sobreviveu toda a equipa do
CM para relatar os acontecimentos aos restantes três portugueses. Vamos tentar falar
com Jorge Vítor para compreender as suas motivações.
Boa tarde, senhor Jorge Vítor, pode-nos explicar as suas motivações para cometer esta
série de crimes hediondos?
- Posso, claro. Minha senhora, isto é tudo muito simples! Tinha para mim que a
população estava a ficar fora de controlo. Por isso, naqueles dias quentes do verão
passado, comecei a deixar as torneiras de minha casa sempre abertas. Senti um especial
prazer em ver os noticiários da sua concorrência, claro, a pedir às pessoas para desligar
as torneiras sempre que possível. Acordava todos os dias às 8 horas da manhã e via cerca
de doze noticiários. Senti uma felicidade incontável quando o Presidente da República
veio apelar ao patriotismo dos portugueses, pedindo-lhes que poupassem água. Tinha
os lábios gretados, a pele esverdeada, os olhos esgazeados e, como sabe, acabou por
falecer em directo, desidratado. Sobrei eu, a minha mãe e a minha gatinha Cleide.
- Então o senhor apenas deixou as torneiras abertas?
- Sim, isso mesmo. Resultou, não foi?
- Parece que sim… mas não teme ir para a cadeia?
- Por acaso algum dos seus colegas também é polícia ou guarda prisional? Por
acaso algum dos seus colegas é juiz?
- Quer-me parecer que não…
- Então, aos olhos da lei, nenhum crime foi cometido. Sem julgador não há
julgado, acho eu.
- Tendo em conta que não será preso, já equacionou desligar as torneiras?
- Já estão desligadas, minha senhora.
- E tem planos para o futuro?
- Tenho. Pretendo deixar de beber água e falecer.
- Porquê?
- Porque assim posso ter mais rapidamente o meu cantinho no panteão, de
preferência junto ao Eusébio. Sempre gostei de futebol, acredita nisso? A minha mãe já
aceitou o plano. Quando falecer, ela e a gatinha Cleide irão depositar o meu corpo no
panteão. Será uma grande cerimónia. Tendo em conta que poupei toda a sua equipa,
pedia-lhe agora que fizessem da minha morte uma obra de arte. Grinaldas de flores no
caixão, uma grinalda na minha cabeça, motivos aquáticos destacados no mármore e
uma cópia do Aquaman sobre o meu coração. Transmitam as exéquias em directo,
façam o vosso alerta com o seguinte rodapé: «Faleceu um artista de renome nacional. É
um dia triste para a História. O Presidente da República, se estivesse vivo, certamente
receberia a mãe de Jorge nos seus braços.» E creio que é tudo. Podem-me fazer esta
vontadinha?
- Creio que sim, senhor Jorge. Obrigado pelas suas declarações.
- Não tem de quê. Mas quer ir à pesca comigo? Isto agora sem água até fica mais fácil!

09
Dez19

Criança nasce com cauda na Colômbia



Parece que na Colômbia nasceu um bebé com cauda. Segundo a imprensa, as
fotografias tornaram-se virais. Fiquei com pena daquela criança, não por ter
cauda mas por as fotos se terem tornado virais.
No mundo de hoje as pessoas têm cada vez menos empatia, e isso talvez advenha
do  tempo excessivo que passamos nos nossos telemóveis.
Aquela criança nasceu com cauda, até aqui tudo bem; o que está mal é terem-se
tirado e divulgado aquelas fotografias. Acabado de nascer, talvez ainda com dificuldades
respiratórias, o bebé foi posto de costas e tiraram-lhe várias fotos ao rabo, para as 
colocarem na internet. Será que ninguém se lembrou de lhe tirar uma foto à cara
primeiro? Será que os pais aceitaram de bom grado que o rabo do seu filho se tornasse
viral?
Imaginemos que o pobre rapazito, já crescido, decide um dia levar a sua primeira
namorada à casa dos pais; imaginemos que os pais fazem a típica brincadeira de mostrar
à namorada as fotos do namorado em criança… será um dia muito constrangedor para
o “nosso” menino viral.

«Hola, Tata. Sou uma imigrante portuguesa, por isso o meu  espanhol acabou no hola. Anda cá que eu e o Aureliano queremos mostrar-te o álbum das primeiras fotografias do nosso Pablito E. Buendía. Chega-te aqui, querida. Esta é a primeira foto do Pablo.»


A Tata olhará para a fotografia e verá um rabo engelhado e uma cauda prensada entre o polegar e o indicador de algum enfermeiro. Ora o Pablo não é uma repugnante ratazana. O Pablo tem cauda mas é humano! Quer dizer… o Pablo tinha cauda! Foi mutilado, mal abertas estavam as suas goelas e  os seus órgãos online
A quem pertence o poder de decisão num caso destes? O que é que se passou?
Será que a mãe ao olhar pela primeira vez o seu filho, afirmou:

«Tem cauda? Assim já não o quero. Aureliano tira umas fotos ao rabo do miúdo para ser viral, e pega
aquela tesoura.»

Foi isto que se passou? Ou, por outro lado, os pais estavam de bem
com a situação e os médicos obrigaram-nos a cortar a cauda do Pablo?

«Desculpe lá, senhora Pilar, mas esta cauda é para cortar.»
«Não o faça, senhor doutor, rogo-lhe que deixe o meu filho como Deus o fez!»
«Quem o fez foi a senhora e o seu marido, não chame o Senhor para onde ele não é chamado!»
«Por favor, não mutile o meu menino; talvez mais tarde se venha a sentir complexado e tente compensar a ausência da cauda com a venda de cocaína.»
«Tem de ser.»
«Porquê?»
«Porque não há calças para quem tem cauda, minha senhora…»
«Então, ele há-de vestir saias.»


Chop chop, zás trás pás, catrapumba, xiribitátá urra, urra pontapé na cauda,
preconceitos de gente graúda. Lá se foi a cauda.
Cortar a cauda a um recém-nascido é como baptizá-lo uma semana após o seu
nascimento; ambos são compromissos a longo prazo, ambos irrevogáveis.

05
Dez19

A abelha: dissertação sobre o terrorismo


A abelha é um ser acéfalo; vive sob monarquia absoluta, navegando pelos caprichos da rainha déspota. Sucede que a abelha é pau mandado, e quem manda é cruel. A abelha rainha é partidária dos bombistas suicidas; manda os seus soldados ferrar na chicha dos adversários, sem lhes explicar que, ao fazê-lo, irão perecer.

Felizmente, nunca fui picado por um bombista suicida. Seria bastante chato porque não estou virado para morrer tão cedo. Quando passam por mim, sobretudo no verão, os bombistas suicidas zumbem à fartazana, o que me deixa bastante irrequieto. Zumbem para cá, zumbem para lá, e eu não entendo o que dizem. É um idioma tão complexo como o árabe. Os bombistas suicidas falam línguas que não entendo. Talvez seja melhor assim.

A abelha bombista suicida quando ferra é porque se sente ameaçada ou porque acha que vão atacar a sua colmeia. O terrorista islâmico quando ferra é porque se esqueceu das bombas em casa. A primeira diz «Zzzzzzz», o segundo diz «Allahu Akbar». Será que «Zzzzzzz» também significa «Deus é grande»? Não sei, mas não domino o abelhês nem o árabe.

Gostaria de revelar às abelhas e aos terroristas islâmicos que ao ferrar, em princípio, morrem. Admiro esta gente, eu não tenho essa coragem. Morrer é uma coisa, morrer por vontade real ou divina é outra. No fundo, são duas coisas porque um mais um é dois.

A dúvida que persiste é saber se a abelha também tem uma mitologia reconfortante. Será que a abelha ao ferrar tem crises existenciais mas sente que cumpriu o seu dever ou, tal como o terrorista islâmico, vai feliz na crença de que tem um séquito de abelhas rainhas virgens a fecundar? Não sei, mas como disse, não domino o abelhês nem o árabe.

 

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