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T2 na Arrentela

T2 na Arrentela

21
Dez19

Capítulo 2. Tu és um nojo; Vida na comédia; Ela


            Tocou. Tocou pela terceira vez e pela terceira vez carreguei no snooze. Acordei. Habitualmente acordo mais pelos brados do meu irmão a mandar-me desligar o despertador do que pelo despertador em si. Acordei com vinte e dois anos, a idade que terei até completar mais uma volta ao Sol. É a Terra que dá voltas ao Sol, mas eu faço parte da Terra, e eu é que sou egocêntrico.

 Dor de costas: check; boca seca: check; pulmões com dificuldades no motor de arranque: check. Todos os dias a mesma coisa, sempre a mesma rotina.

            Levanto-me, dirijo-me à casa de banho, batalho com o tampo da sanita, urino, puxo o autoclismo e não baixo o tampo da sanita. Esse é um problema da minha mãe. Completo uma revolução sobre mim mesmo e olho-me ao espelho durante largos minutos, porque sou ligeiramente bonito ou pelo envelhecimento precoce da minha pele. Ainda não me decidi quanto aos motivos de tanto me olhar ao espelho.

            Agarro no telemóvel e coloco os fones nos ouvidos, abro o youtube e vejo um vídeo do Trevor Noah ou do Stephen Colbert para saber o que se passa na greatest nation on Earth. Ambos os apresentadores fazem piadas fáceis sobre o Donald Trump, do estilo: “Ontem comi um pêssego, por isso é como se tivesse ingerido o Donald Trump.” O vídeo acaba, pego numa chávena de vidro com café – e não numa chávena de café –, onde coloco um pacote de açúcar. Mexo o café com uma colher de uma liga metálica que desconheço – embora tenha quase a certeza de que não há prata nesse talher porque não somos ricos – e durante este processo lembro-me de querer ser comediante.

 “Se o Noah e o Colbert fazem isto com uma equipa de trezentas pessoas, eu consigo fazer isto com as três personalidades que possuo na minha caixa craniana.”

Fico motivado e penso em inscrever-me num open mic mas vem à tona a minha segunda voz que relata à primeira:

“Tu não és engraçado. Se algum dia tiveres piada será pelos piores motivos. Quando estiveres a subir ao palco, vais tropeçar num fio qualquer e as pessoas vão-se rir; quando estiveres prestes a abrir a boca, vais ter de pigarrear e as pessoas vão-se rir; quando estiveres a meio do teu texto as pessoas vão reparar que estás a suar profusamente das axilas e vão-se rir e sentir enojadas. Tu és um nojo.”

            Por fim aparece a minha terceira voz, a mais eloquente, que diz às restantes:

“Relaxem. Nós somos relativamente engraçados. Se participarmos num open mic o pior que poderá acontecer é ninguém se rir, mas com o tempo havemos de melhorar. Sejamos honestos: ainda não tentámos avançar com isto porque temos medo do que ela poderia pensar de nós. Apesar de ela não falar connosco há mais de um ano e de provavelmente não querer saber minimamente o que se passa, nós ainda alcandoramos a sua opinião nos píncaros da consideração humana. É triste, rapazes, mas estamos presos ao passado.”

            No fim da conversa o café está frio; tão frio como durante algum tempo achei o coração dela. Bebo o café sem prazer.  Ela queria coisas diferentes, eu queria congelar o tempo. Mas quem é ela?

18
Dez19

Capítulo 1. Frangos, bombas, lápis e saias


Queridos bloggers, 

Apresentamos agora o primeiro capítulo de uma história que não sabemos no que consiste nem para o que vai. O único detalhe que podemos avançar é o carácter autobiográfico da narrativa, com os necessários toques de magia que tiram o aborrecimento de uma vida plenamente rotineira e sem piada. A história também deverá ser  humorística se o leitor lhe achar piada, caso contrário nós andamos muito iludidos deste lado. 
Assumimos o compromisso de publicar um pequeno capítulo todas as quartas e sábados durante aproximadamente 457 semanas. 
Obrigado pela atenção. 

Cá vai:

 

1.

 

A vida é volátil e absurda. Dizia Jorge de Sena que um frango ao cair de um avião pode parecer uma bomba, mas – penso eu – uma bomba num forno também pode parecer um frango.

Não há motivo geral ou particular para se colocar uma bomba no forno, e qualquer pessoa dispõe das faculdades necessárias para evitar um lapso tão bacoco. Quem coloca um frango no forno em princípio tê-lo-á temperado; quanto às bombas, o tempero vem no seu interior: é como o peru do Dia de Acção de Graças dos americanos.

            Admito: eu não sou conhecido por dar graças às Graças.  O ano tem trezentos e sessenta e cinco dias; as Graças designaram, por si e para si, um dia específico para agir. Eu ajo todos os dias; não o digo para me pavonear ou entrar numa disputa de contagem de galardões de mérito militar. Não sou bom de pistolas, e também sou mau noutras coisas como a matemática.

            A matemática provoca-me frieiras nas mãos.  Certo dia, não removi as luvas ao entrar na sala de aula. A professora Otília, de olhos inquisitivos, plenamente iracunda e pronta a esganar aquele jovem – que na altura era eu – que a havia afrontado ao não lhe mostrar as mãos enquanto fazia equações.

– Ó jovem – ela chamou-me jovem porque naquele dia eu era mais jovem do que sou neste momento, e menos jovem serei no fim desta frase – porque é que está de luvas na minha sala de aula?

 – Tenho frieiras, senhora professora.

 – Ora, pois bem, eu tenho um gato. Saia da minha sala de aula! Rua!

Eu mantive-me prostrado no meu assento. O pânico suscitado por aquela interacção quebrou as correntes metálicas da polia que é o meu cérebro. Continuei sentado, e comecei a olhar em volta procurando a saia.

“Qual será o tipo de saia que mais se adequa à sobriedade de uma sala de matemática?” – pensei eu. – “Plissada? Rodada? Saia em A? Não, essa certamente ficará melhor na sala de língua portuguesa. Saia lápis? É possível… Mas que lápis? B ou HB? F ou H? oh não! Voltei à língua portuguesa. Que disparate.”

Enquanto eu pensava a professora abriu a porta, aproximou-se e arrastou-me até à saída. Nos estreitos segundos que a porta demorou a fechar-se tentei passar os olhos por todos os cantos da sala, tentando encontrar a saia da minha salvação. Sem sucesso. Estava sozinho e entregue às veredas frias do recinto escolar até ao próximo toque.

11
Dez19

Como seria a Segunda Guerra Mundial no século XXI


Se decorresse no século XXI a Segunda Guerra Mundial duraria minutos. Com
tantas redes sociais e com tanta autopromoção, parece-me lógico que Adolf Hitler,
Mussolini, Estaline, Churchill e Roosevelt seriam grandes instagrammers e membros
activos no Facebook, Twitter e Twitch.


Mal estalasse o conflito, Hitler faria uma live stream no Twitch e escreveria no
Twitter: «sinto-me abençoado, acabámos de invadir a Polónia com sucesso!»; colocaria
uma fotografia no Instagram, sentado nas escadas do Reichstag, afagando o pêlo do seu
pastor alemão. Na descrição, escreveria: «sinto-me abençoado, acabámos de invadir a
Polónia com sucesso!» Pouco inspirado, fracas ideias: o habitual. Abaixo seguir-se-ia
uma enxurrada de hastags, tais como: #abençoado, #chegueievenci, #adoroomeucão,
#odeiojudeus. Mas tudo isto em alemão, aquele idioma cheio de consoantes que por si
só justifica o nazismo.


Talvez Churchill seguisse o mesmo caminho. O Facebook perguntar-lhe-ia: «Em
que estás a pensar?», e ele, com tanta coisa por dizer, não se ficaria. Já idoso,
provavelmente responderia como se o Facebook fosse uma pessoa. «Ilustre Facebook,
obrigado pela tua questão. Vai uma charutada? Vá, não faças cerimónias! São cubanos,
sem embargo. Honestamente, tenho andando a pensar naquele parvalhão do Hitler e
no papa-crianças do Estaline. Quem me dera queimar-lhes os olhos com os cubanos, só
se estragavam mesmo os charutos. Isso, sim, seria o verdadeiro crime contra a
Humanidade!
Sempre teu, Winston Churchill.»


Benito Mussolini recorreria às stories do Instagram. Ali colocaria pequenos
vídeos em tronco nu, incitando os seus queridos camisas negras a bater em comunistas.


Estaline utilizaria o Twitter para esgrimir argumentos com Hitler. «@AdolfHitlerFührer, podes ter invadido a Polónia, mas a Ucrânia já cá canta há uns tempos. #LenhaparaGulag.»


Roosevelt demoraria a reagir porque estava a terminar a segunda temporada de
Dark, no Netflix. Quando saísse do seu transe, pensaria: «estes alemães até fazem um
bom trabalho!» De seguida abriria as redes sociais e ficaria horrorizado. Escreveria no
Twitter: «@KingGeorgeVI, peço-lhe perdão. Estava no Netflix and chill. Vou já mandar a
força aérea para aí.»


No meio de tudo isto, os líderes esquecer-se-iam de desligar a informação de
localização do smartphone, e saberiam em minutos onde estavam os seus inimigos.
Milhares de bombas voariam, Hitler não teria um bunker, Estaline não teria o seu
derrame cerebral, Mussolini não serviria de bola de futebol nas ruas, Churchill não teria
tempo para mais charutadas e Roosevelt deixaria de pagar a conta do Netflix. Isto tudo
em minutos!


Uma calamidade! Uma verdadeira calamidade ter de fazer unfollow a tanta
gente, ainda por cima em tão pouco tempo….

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